Falando dos Problemas urinários

Apesar de fazerem parte do normal crescimento e desenvolvimento da criança, os hábitos urinários são muitas vezes uma fonte de preocupação para os pais, principalmente quando começam a comparar o seu filho com alguns sobrinhos ou colegas da escola. Hoje, vamos conversar um pouco sobre a aquisição do controle da bexiga e outros dois problemas também relacionados com o aparelho urinário: as infecções e a dilatação pielo-calicial.


O controle da bexiga

Nos primeiros anos de vida, a criança não tem controle sobre o esvaziamento da bexiga. Como resultado, a criança faz chichi de forma involuntária e de forma reflexa, sempre que a bexiga está cheia. Nos primeiros tempos, este processo ocorre diversas vezes por dia, mas à medida que a criança cresce, a sua bexiga também cresce, e o número de vezes que necessita de ser esvaziada vai diminuindo.
Também ao longo da sua vida, a criança vai progressivamente sendo capaz de controlar este processo até conseguir controlar de forma voluntária e consciente o esvaziamento da sua bexiga. Não existe uma idade rígida a partir da qual a criança deve controlar a sua bexiga. Habitualmente, a criança consegue controlar primeiro durante o dia e só mais tarde durante a noite. As idades em que isto acontece são muito variáveis de criança para criança, mas é de esperar que uma criança deixe as fraldas durante o dia até aos dois ou três anos e durante a noite até aos três ou quatro anos. No entanto, é muito importante os pais estarem conscientes de que algumas já o conseguem aos 18 meses, enquanto outras, aos cinco anos, ainda não estão preparadas para deixar as fraldas à noite.

Chichi na cama

O termo «enurese» é utilizado para as crianças que não controlam o esvaziamento da bexiga, numa idade em que este já deveria ter sido atingido. Trata-se de um problema frequente nos consultórios de Pediatria, em grande parte devido à ansiedade que esta situação provoca nos pais, principalmente se a criança tem mais de cinco anos.
Em primeiro lugar, é importante que os pais saibam que o controle sobre a urina pode não ser conseguido em algumas crianças até uma idade maior, sem que isso signifique qualquer doença. Esta situação ocorre em 7% dos rapazes e 3% das raparigas aos cinco anos. Aos dez anos, a prevalência passa para 3% nos rapazes e 2% nas raparigas. E aos 18 anos um em cada cem rapazes pode sofrer deste problema. Existe uma tendência familiar muito marcada e, habitualmente, os pais também tiveram dificuldades no controlo da bexiga.
De uma forma prática, podemos considerar dois tipos de enurese. Se a criança nunca conseguiu controlar a urina, estamos perante uma enurese primária. A enurese diz-se secundária quando a criança conseguiu já controlar a urina mas volta, a certa altura, a fazer chichi durante a noite. A enurese primária está muitas vezes associada a um treino deficiente ou a um grande stresse colocado na questão do controle da bexiga. A enurese secundária ocorre geralmente na sequência de situações de stress, como o nascimento de um irmão, discussões dos pais, separação dos pais, mudança para uma nova casa ou escola.
Em ambos os tipos de enurese, a causa é quase sempre psicológica, aliada ou não a alguma tendência familiar. Só muito raramente é encontrada uma «doença» responsável por esta situação. Esta afirmação serve fundamentalmente para descansar os pais, habitualmente ansiosos com a situação. Na maioria dos casos, apenas é necessário que a criança seja observada com cuidado e, eventualmente, realizadas análises de rotina à urina. Para o sucesso da situação, o mais importante é criar um ambiente calmo e descontraído, não pondo a criança sob demasiado stresse. A criança deve ser recompensada por cada noite «seca» de forma a incentivar o seu controle sobre a situação. Alguns pequenos gestos como evitar beber água após o jantar e fazer chichi antes de ir para a cama podem também ajudar. Castigar e humilhar a criança, principalmente em frente de outros, raramente traz sucesso. Em alguns casos pode ser necessário um acompanhamento psicológico mais intenso.

Jornal de Portugal 2021